Filariose

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Texto de Bárbara Ximenes Braz


Tabela de conteúdo

Filariose

A filariose ou filaríase linfática é causada pelo nematódeo Wuchereria bancrofti e produz quadros clínicos muito diversos, englobando desde formas assintomáticas e linfadenites até orquiepididimites, hidroceles e elefantíases.

Ciclo das Filárias nos Insetos

Ao picar um indivíduo parasitado durante as horas de microfilaremia, o mosquito Culex ingere larvas que, ao perfuram a parede do estômago, invadindo a cavidade geral e nadando na hemolinfa até o tórax. Nos músculos torácicos, estes se imobilizam e passam por transformações morfológicas. L1 encurta-se, tomando formato de salsicha. Após a primeira muda, a larva L2 cresce rapidamente e abandona os músculos torácicos, realizando a segunda muda na hemolinfa e constituindo L3, a forma infectante para o hospedeiro vertebrado. A larva infectante perfura o lábio do vetor, estimulado pelo calor da pele humana. A larva fica,então, no superfície externa do tegumento.

Ciclo no Homem

A larva penetra na pele por meio da lesão da picada, sendo atraída pelo líquido que por ela surge. Penetram então nos vasos linfáticos, migrando para os locais de permanência definitiva. Durante isso, ocorrem duas mudas que produzem larvas L4 e adultos juvenis, antes de se tornarem helmintos adultos. A maturação demora ainda um ano, quando aparecem microfilárias no sangue.

Microfilárias

Por razões desconhecidas, as larvas, paridas dentro de vasos e troncos linfáticos acumulam-se nos capilares pulmonares, não aparecendo na corrente sanguínea durante o dia. Após o crepúsculo, surgem larvas no sangue puncionado. A microfilaremia aumenta progressivamente até as primeiras horas da madrugada, quando passa a declinar novamente.

Imunidade

Pacientes com qualquer uma das formas clínicas reagem de forma medíocre aos antígenos da filária. Costuma haver hipergamaglobulinemia, com nível elevado de anticorpos específicos, mas os indivíduos com microfilaremia apresentam títulos baixos.

Tipos extremos da doença que têm relação com a resposta imune do hospedeiro:

1. Pneumopatia Eosinófila Tropical: hiper-reatividade aos antígenos filarianos, com aumento das taxas de anticorpos de todas as classes e de IgE e de eosinófilos.

2. Formas em que a microfilaremia existe, porém há hiporreatividade imunológica, não havendo manifestações agudas nem crônicas do sistema linfático.


Patologia

Processos Inflamatórios

Os quadros patológicos geralmente são encontrados em pacientes com adenopatias e sem microfilaremias.

Adenites

Linfonodos mais atingidos: inguinais, epitrocleanos, os axilares e raramente os cervicais.

Linfonodos tornam-se sensíveis ou dolorosos, mas não são aderentes à pele. Em torno das filárias aí localizadas formam-se granulomas e, após a morte dos helmintos, ocorre calcificação.

Linfangites

Uma das principais características da filariose é a inflamação e dilatação dos vasos linfáticos, que formam varizes. No interior do vasos, encontram-se vermes, livres ou presos em trombos que, quando degeneram, promovem um aumento da reação granulomatosa e necrosante.

Lesões Genitais

Pode ocorrer linfangite do cordão espermático ou funiculite filariana, geralmente acompanhada de epididimite e orquite. Após as crises de funiculite, sobrevém uma varicocele.

A mais freqüente das manifestações de filariose genital crônica é a hidrocele, que constitui distensão e espessamento da túnica vaginal.

Processos Obstrutivos: Linfoedema

Novelos de filárias envolvidos por reação inflamatória em um linfonodo ou vaso podem causar obstrução parcial ou total, permanente ou intermitente, da circulação linfática, causando estase ou congestão da linfa. Tais fenômenos obstrutivos são mais evidentes nos órgãos genitais e membros inferiores, devido à localização preferencial das filárias em abdome e pelve.

Com uma grande dificuldade circulatória, ocorre acúmulo de linfa nos tecidos, causando o edema linfático ou linfoedema. Se localizado próximo a cavidades serosas, como pleura, peritônio ou túnica vaginal, pode ocorrer derrame linfático(linfotórax, ascite linfática ou linfocele, respectivamente).

Outras possibilidades incluem a ocorrência de derrame de líquido através das vias urinárias(linfúria) ou dos intestinos(linforréia).

Complicações da Filariose

Vasos linfáticos infectados são mais susceptíveis a infecções bacterianas.

Linfonodos parasitados podem formar abcessos, pincipalmente em região inguinal.

Infecções estreptocócicas podem desenvolver um quadro de erisipela em tecido celular subcutâneo de territórios ocupados pelo linfoedema.

Elefantíase resulta de hipertrofia e fibrose do derma e da tela subcutânea, relacionados talvez com o alto teor de proteínas do linfoedema. Perturbações tróficas, devido ao déficit circulatório, induzem modificações na pele, que aumenta de espessura, perde a elasticidade, fica ressecada e hiperqueratósica, sujeita a rachaduras e a infecções bacterianas. Ocorre geralmente em uma ou ambas as pernas ou nos órgãos genitais e raras vezes em braços ou mamas.

Sintomatologia e Clínica

Período Pré-Patente

Entre a penetração das larvas e o aparecimento de microfilárias no sangue. Dura um ano ou mais e geralmente é assintomático ou ocorrem manifestações alérgicas.

Período Patente Assintomático

Após a microfilaremia, o indivíduo pode continuar assintomático durante anos ou toda a vida, alguns podendo também tornar-se negativos após certo tempo, principalmente se abandonam a área endêmica. Esta fase pode ser curta ou não existente.

Forma Aguda

Aparecimento de fenômenos inflamatórios. Linfangites e linfadenites freqüentes, bem como orquites, epididimites e funiculites. Geralmente se inicia subitamente, com dor inguinal ou em um ponto em membros inferiores. Calafrios, elevação da temperatura, mal-estar, dores de cabeça e musculares, fadiga, anorexia, náuseas, insônia e observação de um cordão consistente e sensível à palpação no trajeto do vaso linfático podem estar presentes.

A ocorrência desses processos inflamatórios autorresolutivos denomina-se Febre Filarial e dura de 3 a 4 dias, surgindo novamente, de maneira menos severa, em intervalos variáveis de meses ou anos.

Forma Crônica

Fatores que a favorecem: número de larvas que penetraram, freqüência de reinfecções, número de acasalamentos e sua localização, sensibilização do hospedeiro, hábitos do paciente(sobrecarga de esforços e resistência diminuída) e infecções bacterianas concomitantes. Há predomínio de fenômenos obstrutivos, agravados pela inflamação nos pontos de estrangulamento de circulação linfática e pela fibrose nas zonas e estase e edema. A microfilaremia é escassa ou totalmente ausente, devido a processos imunológicos ou morte dos vermes adultos. Tais alterações obstrutivas levam a hidrocele, elefantíase e quilúria, sendo a hidrocele a manifestação clínica mais característica da filariose no Brasil.


Fonte: Bases da Parasitologia Médica; Rey, L.

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